SBSR: Rescaldo do 1º dia do 2º acto

O primeiro dia do 2º acto da edição 2007 do Festival Super Bock Super Rock ficou marcado pelo regresso dos Arcade Fire a Portugal, depois de um muito elogiado debute, em 2005, no Festival de Paredes de Coura. Com um segundo álbum – Neon Bible – na bagagem e uma reputação de excitante banda de palco (elogiada por «monstros» sagrados como Bono e Bowie), a banda de Win Butler ofereceu ao público lisboeta um espectáculo irrepreensível, satisfazendo as melhores expectativas.

A actuação do grupo de Montreal foi precedida por uma bizarra apresentação em vídeo. Trata-se de um trecho que no YouTube está identificado como «Posessão Demoníaca» ( veja o vídeo aqui ) e que não é mais do que uma menina brasileira em discurso livre numa assembleia evangélica – não declama, garantimos, a mesma bíblia de neon da banda canadiana. Dez minutos volvidos sobre a meia-noite, a numerosa banda do Québec (que incorpora metais e cordas, para além de baixo, bateria, teclados, guitarras e percussões diversas) dava início a uma actuação de quase uma hora e meia pontuada por um número elevadíssimo de pontos altos. O primeiro logo a abrir: uma notável rendição de «Black Mirror», um dos documentos mais enérgicos de Neon Bible . Em palco, cinco telas circulares projectam a bíblia de neon da capa do disco e, ao fundo, uma cortina vermelha – onde, do lado esquerdo, se localizava uma réplica decorativa de um órgão de tubos – serve também de campo de projecção. E, claro, há tiras verticais de neon vermelho «fingido» que vão acendendo episodicamente.

Como que a querer mostrar que a noite não é para brincadeiras (ou segundas escolhas), Win Butler e companhia tratam de atacar «No Cars Go» (o tema antigo que, recauchutado, se tornou ex-libris do novo álbum). Régine Chassagne toma o microfone para «Une Anée Sans Lumière» e a bateria em «The Well & The Lighthouse» e «Ocean of Noise»; a maior parte do tempo está atrás dos teclados. Na guitarra e voz, Win Butler não parece o maestro da orquestra, mas lidera-a sem problemas. Numa das suas guitarras está cravado o provérbio haitiano «Sak Vid Pa Kampe» (qualquer coisa como «um saco vazio não se aguenta em pé»), uma alusão às crianças haitianas que lutam diariamente contra a má nutrição. De recordar que as origens de Régine (que é também mulher de Win) estão naquele país do Caribe.

Depois de nova descarga de emoções em «Tunnels», Win – que se desmultiplicou em agradecimentos – conta que, em Montreal, vive entre a comunidade portuguesa e a grega, pedindo desculpa por lembrar o povo que nos «tramou» a vida no Euro 2004. Seguem-se sentidos agradecimentos de uma banda que, não raras vezes, recebeu do público um coro afinado mesmo quando as músicas já tinham acabado. E um ainda mais empolgante «Rebellion (Lies)», a suscitar braços abertos em direcção ao céu e um ambiente incrivelmente tocante.

A despedida – em encore – dá-se com a indispensável «Wake Up», mais um épico de Funeral para cantar em coro. E nesse momento, bem perto do fim, banda e público do Super Bock Super Rock parecem uma só entidade. Bonito de ver.

Para os «coleccionadores», o alinhamento:

Black Mirror
No Cars Go
Une Anée Sans Lumière
(Antichrist Television Blues)
Intervention
Headlights Look Like Diamonds
The Well & The Lighthouse
Ocean of Noise
Tunnels
Rebellion (Lies)
Power Out
Keep The Car Running
Wake Up

Com a adrenalina no máximo, Kele Okereke não se cansa de afirmar o prazer que sente em regressar a Portugal. Às 22h25 em ponto, os Bloc Party (ou Bock Party, como gracejou) começavam a todo o gás e numa fase ainda preparatória do concerto encontrámos «Banquet», que gerou um reconhecimento directamente proporcional à largura de banda de uma conhecida operadora de telemóveis. Despachado o «hit» de Silent Alarm , cedeu-se lugar a temas como «Hunting For Witches», «This Modern Love», «Two More Years» e «The Prayer».

Em fundo negro com silhuetas de arquitectura urbana e as palavras «Bloc Party.» prontas a ser coloridas pela iluminação, o grupo alterna entre músicas da estreia Silent Alarm e o mais recente A Weekend In The City . Depois de uma paragem abrupta, após demolidora interpretação de «Like Eating Glass», os Bloc Party regressaram ao palco – e aos braços dos fãs. Durante «She’s Hearing Voices», Kele juntou-se aos fãs que, na primeira fila, imploravam a «setlist» do concerto. «Pioneers» e «Helicopter» prolongaram a euforia e encerraram um espectáculo emotivo, de final de digressão – Kele anunciou que, pouco depois, estariam de partida para Londres.

O cardápio do dia começou a ganhar forma com a actuação dos conimbricenses Bunnyranch. Ainda perante uma plateia escassa, o grupo liderado pelo baterista e vocalista Kaló assumiu estar a tocar para «20, 25, talvez 30 pessoas» que conheciam a banda, mas o entusiasmo não esmoreceu. «In The Land of the Poor», «The Dog», «Flip Flop», «Can’t Stop The Ranch», «Inside My Head», «Little Bird Get In Shape» e a versão de «Hungry», original de Paul Revere & The Raiders, fizeram parte de um alinhamento que, noutras circunstâncias, teria tudo para ser explosivo. Ainda assim, um bom aquecimento (apesar do vento que começava a fazer-se sentir).

Ainda com o sol a raiar, os Gift – mais habituados a cenários nocturnos – resumiram em 50 minutos uma carreira que já vai entrar para a segunda década. Já perto do final, ousaram colar «Driving You Slow» a «Enjoy The Silence», êxito dos Depeche Mode, mas o regime «best of» fez-se sem misturas, do coro de vozes femininas de «Actress» à folia garrida de «Question of Love». «645» anunciou-se como próximo single de Fácil de Entender e Sónia Tavares incitou, como habitualmente, o público a bater palmas e a saltar. Foi obviamente retribuída.

Os ingleses Klaxons estreavam-se, pouco depois, em terras nacionais. O Parque Tejo recebia os fundadores da new-rave, que não é mais do que um punk funk com aditivos sintéticos. O grupo, a conseguir reunir audiência numerosa em frente do palco, passou em revista o seu álbum de estreia quase na totalidade. De Myths of the Near Future ouviram-se temas como «Gravity’s Rainbow», «Atlantis To Interzone», «Golden Skans», «Magick» e «It’s Not Over Yet». O trio – aqui aumentado a quarteto com a inclusão de um baterista – mostrou-se comunicativo, sublinhando o facto de se estrearem em Portugal em formato concerto (depois do recente DJ set na Casa da Música, no Porto). O guitarrista Jamie Reynolds chega a mencionar a sua ligação amorosa com uma falante de língua portuguesa, a brasileira Luísa Matsushita (ou Lovefoxxx, para os amigos), dos Cansei de Ser Sexy.

Antes dos cabeças de cartaz da noite, tocaram ainda os Magic Numbers, quarteto que conheceu algum destaque há dois anos, aquando da edição do álbum homónimo. O grupo está a meio caminho entre a distensão pop californiana (Mamas & The Papas, diz-se, como matriz), a power pop dos Big Star e o rock 70s de longas barbas e bigodes que nos entraram pelos ouvidos por via dos Eagles.

Claro que nada disto se resolve pacificamente e, por vezes, a banda parece não encontrar a porta de saída de canções que começam promissoras. No entanto, a actuação do quarteto dos irmãos Romeo e Michele Stodart e Sean e Angela Gannon conquistou o público nacional. No começo da sua actuação, poucos eram os que se concentravam frente ao palco; algumas canções volvidas, a adesão dos espectadores traduzia-se em palmas, compasso marcado pelos pés e vincados aplausos a Angela Gannon, cujas doces harmonias vocais ajudaram a embelezar, ainda mais, canções como «Undecided», «I See You, You See Me» ou «Love Is a Game». Talvez seja altura de (re)descobrir Those The Brakes , segundo álbum do grupo, editado em Novembro passado.

in BLITZ 

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1 Comentário

  1. Julho 4, 2007 às 12:49 pm

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