Half Nelson

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Cá está o filme sobre professores inspiradores e alunos problemáticos capaz de meter a um canto e reduzir à sua insignificância toda uma linhagem de filmes do género (lembro-me, por exemplo, de Mentes Perigosas, com Michelle Pfeiffer). Half Nelson (em Portugal chama-se Encurralados) tem a originalidade de ter um professor inspirador tão ou mais problemático que os seus alunos problemáticos – interpretado por Ryan Gosling, um dos grandes actores da nova geração, um tipo com a intensidade de um jovem Robert De Niro – e é escrito, realizado e interpretado com uma sinceridade e um realismo impressionantes. Gosling é apanhado por uma das suas alunas (Shareeka Epps) numa das casas-de-banho da escola a fumar crack e isso é o ponto de partida para uma inesperada amizade entre os dois, baseada no segredo, e um complexo triângulo de relações que inclui também um dealer (Anthony Mackie) que tem uma relação quase paternal com a jovem. O homem, que vende droga, não quer que ela se dê com um consumidor; o professor, que consome droga, não quer que ela se dê com um dealer. É uma complexa teia de relações e moralidades entre pessoas que, de uma forma ou de outra, contam umas com as outras para se puxarem do abismo.

O filme de Ryan Fleck e Anna Boden é inteligente, oferece alguns murros no estômago ao espectador (sem, no entanto, entrar em simplismos para chocar – veja-se, por exemplo, como a personagem do dealer nada tem a ver com os lugares-comuns habituais) e, no fim, sem lamechices, abre uma janela de esperança. Pelo caminho tem uma série de detalhes dignos de nota – a maneira como eventos históricos relativos à luta pelos direitos civis vão pontuando a acção, lidos pelos alunos; ou pequenos pormenores preciosos como o momento em que Gosling usa um pequeno penso com a bandeira americana para cobrir uma ferida no lábio – e que ajudam a que Half Nelson seja um dos grandes filmes do ano. Nunca é demais sublinhar que as interpretações são, de facto, esmagadoras – sobretudo Gosling (nomeado para o Oscar) como o professor, e Shareeka Epps, no papel da aluna. Vão ver, que não se arrependem.

Texto de Nuno Markl

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