Apenas mais uma viagem

O sujeito tinha uma viagem pela frente. Atravessar meio Portugal era a sua missão. O motivo nem interessa para o caso. Para variar, iria de carro, sozinho.

Mesmo antes de meter a chave na ignição, o sujeito olha para a velha bolsa de cds na esperança de encontrar algo que lhe possa animar um pouco o espírito, que engane o marasmo de percurso marcado pelas longas rectas de auto-estradas. Tem mais de 50 álbuns, mas tudo lhe soa a mais que ouvido.

O sujeito decide então algo diferente. Para o bem e para o mal, vai deixar que sejam as ondas da rádio a determinar o fluxo da viagem. Até porque já é de noite e a música tende a não ser tão comercial. Espera ser surpreendido e é também por isso que opta por se abster de sintonizar emissoras nacionais.

Começa por ouvir um programa dedicada à música electrónica da única rádio do ponto de origem da sua viagem. O sujeito é bombardeado por batidas execráveis que bem poderiam ser a música de fundo de um qualquer carrossel manhoso. Felizmente, a auto-estrada aproxima-se e, com ela, mais frequências.

Nova tentativa de sintonização. A busca automática, caprichosa, pára num clássico “discos pedidos”. O sujeito ouve “a Carla Vanessa dedica este tema Tony Carreira ao seu marido, filhos e todos os amigos com muito”… Nem deixa terminar a dedicatória. Terceira tentativa. Ouve-se o final de uma das músicas do último álbum dos Loto. O sujeito já os viu ao vivo e não desgostou, deixa ficar naquela frequência que parece prometer. Segue-se Blind Zero, uma das antigas. O título era… O sujeito tem uma péssima memória. Contudo, lá vai um pouco menos apático na viagem, a agitar ligeiramente a cabeça. Entra o animador em acção para anunciar que o próximo tema é de André Sardet.

Agastado, o sujeito volta à busca automática. Durante os próximos 15 minutos, vai saltitando de frequência em frequência. Nada de interesse. Como em tantas outras situações, farta-se da experiência. Já só quer ouvir um dos seus velhos álbuns.

Ziguezagueando automobilistas que respeitam o limite o velocidade, o sujeito procura desesperadamente uma estação de serviço. 20 quilómetros para a próxima, diz a placa. Não pode esperar tanto tempo. Sem abrandar, o sujeito estica o braço, pega na bolsa de cds e, sem escolher, lá consegue tirar um disco. Com mais um esforço, encontra a ranhura do leitor. Olha para a frente e apenas tem tempo para perceber que está próximo demais da traseira do camião.

“Funeral”, de Arcade Fire, ainda tocava quando chegaram os bombeiros para desencarcerar o corpo sem vida do sujeito.

Bons atritos,

Nad

Texto cedido pela sempre bem vinda a este paroquia, Irma Lucia, atraves do seu blog atritos-sonoros.blog.pt

irmalucia.jpg

1 Comentário

  1. newsubstance said,

    Fevereiro 25, 2007 às 8:24 am

    Eu nem quis escrever mais nada depois do texto, porque acho simplesmente divinal. Passei a ser fã deste colaborador do blog da Sister Lucia, Atritos Sonoros. Estarei lá várias vezes por dia para ver se há mais novidades. Parabens ao autor sem duvida alguma😉


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